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Filho do
operário Francisco José Machado de Assis (um mulato, filho de escravos que
era pintor e dourador), e da portuguesa nascida na lha de São Miguel, nos
Açores Maria Leopoldina Machado da Câmara (que veio a usar o nome de casada
Maria Leopoldina Machado de Assis).
Machado nasceu e foi criado numa chácara na qual seus pais trabalhavam, que
ficava no Morro do Livramento (atual zona portuária do Rio de Janeiro,
próximo ao Bairro da Saúde), essa imensa chácara ia desde o mar onde hoje
ficam as docas e os armazéns até o Campo da Aclamação (Campo de
Santana/Praça da República) essa enorme propriedade pertencia a Maria José
de Mendonça Barroso Pereira, que era viúva do Brigadeiro Bento Barroso
Pereira, um homem que tinha sido muito poderoso, senador do Império, por
duas vezes foi Ministro da Guerra e uma vez Ministro da Marinha. Dona Maria
José era muito generosa, e os agregados da fazenda como os pais do Machado
de Assis disputavam a sua proteção, e assim conseguiram que ela fosse sua
madrinha de batismo; a mulher foi duas vezes homenageada durante o batismo
do moleque. Como madrinha, daria ainda o seu nome ao afilhado; seu nome
Joaquim Maria é uma homenagem a Dona Maria José e ao padrinho, o funcionário
do Paço Imperial Joaquim Alberto de Sousa da Silveira. Nessa chácara ele
viveu até os 15 anos de idade perdeu a mãe muito cedo, pouco se conhece da
sua infância e início da adolescência pois Machado de Assis não gostava de
falar a respeito, na verdade ele não tocava no assunto nem com seu amigos
mais chegados; sabe-se que ele ajudava nas missas na Igreja da Lampadosa (na
atual Av Passos no Centro do Rio de Janeiro), que foi baleiro (vendedor
ambulante de balas e confeitos), e sabe-se também que aos 10 anos de idade,
já sabia de cor a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias; entre os 14 e 15
anos, foi íntimo do Padre Antonio José da Silveira Sarmento, um famoso
professor da época, que contribuiu para a formação espiritual do rapaz. Mais
tarde, Machado dedicou dois poemas ao padre, confessando que, durante um
ano, o sacerdote lhe fora "um modesto preceptor e um agradável companheiro".
Ainda vivendo na chácara do Morro do Livramento, em 1845 morre sua única
irmã Maria Machado de Assis que contava com 4 anos, vítima de sarampo
(durante uma epidemia que assolou o Rio de Janeiro) em 1849 morre a sua mãe,
morreu "tísica" (provavelmente tuberculose), Machado de Assis estava com 10
anos de idade.
Então, seu pai viúvo, se casa pela segunda vez em 1854, dessa vez com a
mulata Maria Inês e se muda com a família para um sobrado na Rua São Luís
Gonzaga nº 48, no Bairro de São Cristóvão. Nem tudo são espinhos; em São
Cristovão ele conheceu uma tal de Madame Gallot, proprietária de uma padaria
no bairro que passou a lhe ensinar o idioma francês. Machado tinha 15 anos.
Foi baleiro, balconista de uma papelaria por 3 dias, caixeiro, revisor,
funcionário público; sempre com pouco dinheiro para poder ler tudo o que
queria, freqüentava bibliotecas públicas da Corte; dessa forma ele se tornou
sócio do Real Gabinete Português de Leitura uma lindíssima e riquíssima em
obras literárias biblioteca, existente até hoje no Largo de São Francisco,
que emprestava livros para os sócios; com pouco tempo para ler, aproveitava
todos os momentos disponíveis; trabalhando no centro da cidade, para voltar
para casa, lia dentro de uma barca, que fazia o trajeto: Cais Pharoux, ou
Cais dos Franceses, como então se dizia (fotos abaixo), a São Cristóvão onde
residia.

As vezes fica difícil localizar com precisão alguns pontos
históricos no Rio de Janeiro devido a grande modificação geográfica sofrida
pelas obras de urbanização feitas ao longo dos séculos, mas o Cais Pharoux
ficava aproximadamente onde hoje são as adjacências da região da Praça XV;
tentando ser mais preciso, ficaria nas proximidades de onde está o Museu
Histórico Nacional. Na primeira foto acima você vê o Cais Pharoux e o
Mercado da Praia do Peixe, aproximadamente em 1893/1894 foto de Juan
Gutierrez. Podemos ver algumas embarcações ancoradas; um pouco atrás, na
Praça XV de Novembro, um edifício redondo chamado de "rotunda" onde esteve
exposto o quadro do grande panorama do Rio de Janeiro, de Vitor Meireles e
outra do belga Langerock; à sua esquerda o Ministério da Agricultura,
Comércio e Obras Públicas, onde trabalhou o Machado de Assis e Manuel
Buarque de Macedo, portanto, entende-se a sua opção de ir de "barca" para o
Bairro de São Cristovão onde morava nessa época; na extrema esquerda quase
imperceptível nesta fotografia se vê com algum esforço o antigo Hotel
Pharoux (ou, como era chamado popularmente, Hotel dos Franceses). O morro ao
fundo era o Morro do Castelo.

Na foto acima se pode ver melhor o Cais Pharoux e o Mercado da Praia do
Peixe, foto tirada entre os anos de 1893/1894 por Juan Gutierrez.
Embarcações a vela ancoradas ou aportando; um pouco do movimento do mercado;
atrás, vê-se a chaminé da Alfândega.
Machado lia um pouco de tudo, mas é sabido de algumas de suas leituras
preferidas: Garret, Castilho, Alexandre Herculano, Camilo e os grandes
românticos franceses. Nesta época começou a escrever poesias, a primeira
publicada, em um jornalzinho intitulado Periódico dos Pobres, na edição de 3
de outubro de 1854; foi um "Soneto" dedicado à "Ilustríssima Senhora
D.P.J.A" foi assinado como sendo de J. M. M. Assis (ele estava com 15 anos);
no texto do poema ele se refere a Dona Petronilha, nome que mostra as duas
primeiras letras da senhora homenageada, a outra parte do enigma, ficará
provavelmente como mistério, para sempre.
Em 1855, frequentava a Livraria e Tipografia do mulato Paula Brito, segundo
consta, um sujeito muito humano, onde depois trabalhou como caixeiro;
livraria é mais uma forma de expressão, pois a loja vendia de tudo,
remédios, chás, fumo-de-rolo, porcas e parafusos etc. Além de servir de
ponto de encontro, lá funcionava a Sociedade Petalógica (peta=(ê), s. f. 1.
Mentira, patranha Fonte: dicionário Michaelis), ou seja, a Sociedade
Petalógica era uma espécie de "clube de mentirosos", lá se mentia por
brincadeira, para se divertir, por irreverência aos acontecimentos; Machado
de Assis se referiu a Sociedade Petalógica assim: "lá se discutia de tudo,
desde a retirada de um ministro até a pirueta da dançarina da moda" e
continua: "desde o dó do peito de Tambelick até os discursos do Marquês do
Paraná".
Na Sociedade ele teve contato com homens mais ricos e poderosos, desta forma
ele aprendeu a se comportar em ambientes mais sofisticados, teve contato com
vários escritores importantes como: Araújo Porto-Alegre (por mais estranho
que possa parecer, o nome dele leva hífen mesmo), Joaquim Manuel de Macedo,
Francisco Otaviano e José de Alencar, com Francisco Otaviano e José de
Alencar fez amizade que durou anos. Brito passou a editar o jornal de modas
e variedade A Marmota Fluminense, onde Machado se tornou colaborador
freqüente, nesse jornal ele viu publicado seu segundo poema, "Ela" na edição
de 12 de janeiro de 1855, e 4 dias depois foi a vez do poema "A Palmeira";
Machado de Assis contava com 16 anos incompletos.
É muito provável que Machado de Assis tenha trabalhado como aprendiz de
tipógrafo na Tipografia Nacional, que ficava na Rua da Guarda Velha (atual
Rua 13 de Maio), mesmo sendo consenso histórico, não se pode ter comprovação
documental, pois os aqruivos de registro de pessoal desta repartição pública
se perderam em um incêndio, mas, em um artigo publicado por Artur Barreiros
no periódico "Penna e Lapiz", a 10 de junho de 1880 ele afirma que de fato
ele trabalhou lá, Alfredo Pujol diz que além disso ele era de certa maneira
relapso em seus deveres por estar sempre lendo em horário de trabalho. O
administrador da Tipografia Nacional, Manuel Antônio de Almeida (autor de
Memórias de um Sargento de Milícias), teria recebido reclamações sobre o
desempenho de Machado de Assis, tendo ido esclarecer a situação, acabou
fazendo uma boa amizade com o escritor.
No escritório do advogado Caetano Filgueiras, ocorria ás 16:00h as reuniões
onde alguns rapazes da época se reuniam, dentre eles: Casimiro de Abreu,
Macedo Júnior, Gonçalves Braga, Emílio Zaluar, Teixeira de Melo, o próprio
Machado de Assis e, é claro o dono da sala o advogado Caetano Filgueiras,
nestas reuniões eles se atualizavam, declamavam poesias e contavam suas
aventuras ou desventuras românticas. Em um círculo mais íntimo era chamado
de "Machadinho"; considerado um jovem sociável, alegre e brincalhão; como
diz Ubiratam Machado, o autor de sua biografia no site da Academia
Brasileira de Letras, "...O Carioca típico..."
Assis vai trabalhar no Correio Mercantil como revisor,pelas mãos do amigo
Henrique César Muzzio, como continuava a ganhar muito mal, se desdobrava a
escrever artigos como colaborador de vários periódicos, ganhando algum para
poder sobreviver.
Na revista "O Espelho" (de propriedade de Eleutério de Sousa), ele consegue
sua primeira coluna fixa: "Revista dos Teatros", uma coluna de críticas
teatrais.
Em 25 de março de 1860, convidado por Quintino Bocaiúva, começou a trabalhar
como repórter do jornal Diário do Rio de Janeiro, órgão pertencente ao
Partido Liberal (absolutamente nada que ver com o Partido Liberal de hoje,
ano 2003), nesta função de repórter ele "cobria" as atividades do Senado do
Império. Assis estava com 21 anos.
Neste jornal, ocupou várias funções, chegando até mesmo a redigir a
publicação inteira algumas vezes.
A partir daí, ele começa a fazer sucesso profissional. É colaborador desde o
primeiro número de "A Semana Ilustrada" (propriedade de Henrique Fleuiss),
já pode dividir um sobrado na Rua Mata Cavalos (atual Rua do Riachuelo), com
seu colega Ramos Paz, pela primeira vez se separando do pai e da madrasta.
(ele estava com pouco mais de 21 anos de idade).
Se entrosou com escritores franceses exilados que se reuniam na redação do
jornal Courrier du Brésil, de Adolphe Hubert onde aproveitava para exercitar
seu francês. Mais tarde, Adolphe Hubert, foi o primeiro a fazer uma crítica
teatral de um trabalho de Assis.
Ele gostava de freqüentar festas, os chamados saraus, e gostava de declamar
em público.
Já adulto, foi diagnosticado como sofredor de epilepsia o que eventualmente
lhe causava " gagueira" ao recitar em público.
O primeiro livro de Machado de Assis foi impresso, em 1861, na tipografia de
Paula Brito (provavelmente financiado pelo próprio Brito), com o título
Queda que as mulheres têm para os tolos, mas o nome do Machado aparecia como
tradutor e não como autor, durante muito tempo se pensava que ele era o
autor desse livro, mas depois se descobriu ser uma tradução de um escritor
belga de nome Victor Hénaux; portanto, devemos tomar muito cuidado ao lermos
biografias muito antigas do escritor, pois podemos incorrer em erros
históricos graves. No mesmo ano de 1861 em setembro, foi lançada a peça
"Desencantos", uma fantasia dramática em dois atos, que não chegou a ser
encenada; desta época em diante escreveu 6 peças teatrais originais e 4
traduções, recebeu uma crítica um pouco áspera do seu amigo Quintino
Bocaiúva e interrompeu a produção teatral, se limitando a traduções; muito
menos pela crítica de Bocaiúva e mais porque peças originais não rendiam
muito dinheiro, enquanto as traduções eram bem pagas. Nessa ocasião ele
contava com 22 anos.
Em 1862, passou a ser censor teatral para o governo, cargo não remunerado,
mas que lhe dava ingresso livre nos teatros. Começou também a colaborar em O
Futuro, órgão dirigido por Faustino Xavier de Novais, seu quase futuro
cunhado.
Saiu em 1864 o seu primeiro livro de poesias, Crisálidas. Quando tinha
apenas 25 anos.
A partir de junho de 1864, começou a escrever prosa de ficção para o Jornal
das Famílias, revista para um público mais aristocrático, de modas,
figurinos e literatura, com uma magnífica impressão litográfica. Bem
apropriado para quem a pouco tempo tinha sido agraciado com a insígnia de
Cavaleiro da Ordem da Rosa, primeiro marco em seu processo de ascensão
social; já se iam longe os dias do "clube dos mentirosos". Publicou ali mais
de 70 contos e novelas, assinados com seu nome e com pseudônimos.
Em 1867, foi nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.
Nessa época, foi que vivenciou seus próprios romances antes de conhecer Dona
Carolina sua futura esposa; dizia ele:
"A minha história passada do coração, resume-se em dois capítulos: Um amor,
não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer;
do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo".
Em agosto de 1869, morreu Faustino Xavier de Novais seu amigo e quase
cunhado.
No dia 12 de novembro de 1869, casou com Carolina Augusta Xavier de Novaes,
irmã de seu amigo falecido a apenas 3 meses, o poeta Faustino Xavier de
Novaes, ela, com 4 anos de idade a mais que ele, que se diziam gostar de
mulheres mais velhas. Foi uma excelente companheira durante 35 anos, tendo
dado acesso a Machado aos clássicos portugueses e vários autores de língua
inglesa. Foram morar na Rua do Fogo nº 119 (Rua dos Andradas). Foi o tipo de
casamento que se podia chamar de "Mão na Luva", pois os dois se davam muito
bem, e, parafraseando Mario Lago, ela poderia perfeitamente "achar bonito
não ter o que comer". Ele com 31 anos e ela 35.
Carolina nasceu na Cidade do Porto - Portugal a 20 de fevereiro de 1835 era
filha de Custódia Emília Xavier de Novais e de Antônio Luís de Novais; tinha
5 irmãos: Emília, Adelaide, Miguel, Henrique e Faustino sendo este último
que serviu de ponte para o encontro com Machado. Machado de Assis muitas
vezes se referia a ela carinhosamente de Carola.
Por volta de 1867, os pais de Carolina faleceram, o seu irmão Faustino pede
para que venha morar no Brasil, pois ele estava sofrendo de certos
"distúrbios mentais" em 18 de julho de 1868 ela chega ao Rio de Janeiro.
Existe um outro motivo desconhecido mesmo para biógrafos tarimbados, um
certo "drama familiar íntimo" que animaria Carolina a sair de Portugal após
a morte dos pais. Seja lá o que for, lendo as poucas cartas que sobrou da
época de namoro e noivado percebe-se que Machado sabia.
O primeiro romance de Machado, Ressurreição, saiu em 1872. Pouco depois, o
escritor foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, foi subordinado de Manuel Buarque
de Macedo iniciando assim a carreira de burocrata que lhe seria até o fim o
meio principal de sobrevivência.
Em 1874, começou a publicar, no Jornal O Globo de então (jornal de Quintino
Bocaiúva, não confundir com o O Globo dos dias atuais fundado por Irineu
Marinho e levado adiante por seu filho Roberto Marinho), em folhetins, o
romance A mão e a luva. Intensificou a colaboração em jornais e revistas,
como O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira, escrevendo crônicas, contos,
poesia, romances, que iam saindo em folhetins e depois eram publicados em
livros.
Em 7 de dezembro de 1876, a Princesa Isabel promove Machado de Assis a chefe
de seção. Passa a receber 5.400$000 anuais, um salário excelente; somando o
que ele ganhava em direitos autorais por seus livros e as colaborações em
jornais e revistas, ele passou a ter um padrão de vida acima da média da
população pela primeira vez. Assim ele mudou do centro da cidade para um
bairro mais luxuoso, o Bairro do Catete, na Rua do Catete nº 206, onde ficou
vivendo por 6 anos. Dos 37 aos 43 anos.
Agora um aristocrata, Assis, se vê com muito trabalho no serviço público,
bastante estressado, trabalha demais, continua escrevendo, e colaborando em
periódicos. As convulsões epiléticas aumentam, teve uma infecção intestinal,
problemas de visão que o Dr. Hilário de Gouvêa não consegue curar, procura o
médico Dr. Ataliba Lopes de Gomensoro que diagnostica como ele sendo vítima
de amaurose, dessa vez ele ficou curado.
Como suas crises de epilepsia ficaram mais freqüentes e graves, passou a ter
um código com Dona Carolina; quando sentia que ia entrar em convulsão, ele
dizia: "Carolina, vou sentir-me mal", e prontamente a Carolina o isolava,
pois ele se sentia profundamente humilhado ao presenciarem seus ataques;
assim como se sentia muito deprimido após cada episódio desses.
Em 1878, pede licença do serviço público. Pela primeira vez em sua vida, com
quase 40 anos, sai de férias. O casal fica três meses em Nova Friburgo na
região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Machado se recupera muito bem e
dizia que: "Só engordei uma vez na vida, foi quando fui convalescer em Nova
Friburgo". Em agradecimento à cidade fluminense, que considerava "uma terra
abençoada", faz Dom Carmo, personagem da sua obra, Memorial de Aires, seu
favorito, nascer em Friburgo.
Em junho de 1880 uma de suas peças, Tu, só tu, puro amor, foi levada à cena
no Imperial Teatro Dom Pedro II (Theatro Imperial Dom Pedro II que ficava na
Rua 13 de Maio, esse teatro ficou mais conhecido como Theatro Lyrico, nome
que recebeu em 25 de abril de 1890), por ocasião das festas organizadas pelo
Real Gabinete Português de Leitura para comemorar o tricentenário de Camões,
deve ter sido um bom retorno para a biblioteca que tanto freqüentou; esta
peça foi escrita especialmente para essa ocasião.
De 1881 a 1897, publicou na Gazeta de Notícias as suas melhores crônicas. Em
1881, o poeta Pedro Luís Pereira de Sousa assumiu o cargo de Ministro
interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e convidou Machado de
Assis para seu oficial de gabinete (ele já estivera no posto, antes, no
gabinete de Manuel Buarque de Macedo). Nesse ano de 1881 saiu também o livro
que daria uma nova direção à carreira literária de Machado de Assis:
Memórias póstumas de Brás Cubas,que foi ditado para sua esposa escrever,
pois ele se recuperava de uma conjuntivite e que ele publicara em folhetins
na Revista Brasileira de 15 de março de 1879 a 15 de dezembro de 1880.
Revelou-se também extraordinário contista em Papéis Avulsos (1882), e nas
várias coletâneas de contos que se seguiram.
Em 1882, Silvio Romero publica um folheto intitulado "O naturalismo em
literatura", violento ataque a Machado de Assis. Lafaiete Rodrigues Pereira
foi em defesa do atacado e, sob o pseudônimo de Labieno, publicou uma série
de artigos no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, respondendo a Sílvio
Romero com com um espírito vingativo incrível.
Machado foi um grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que durante
uma fase dirigiu a Revista Brasileira onde Assis foi colaborador. Do grupo
de intelectuais que se reunia na redação da revista, e principalmente de
Lúcio de Mendonça, partiu a idéia da criação da Academia Brasileira de
Letras, projeto que Machado de Assis apoiou desde o início. Comparecia às
reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1879, quando se instalou a
Academia, foi eleito presidente da instituição, à qual ele se devotou até o
fim da vida.
A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros
literários. Na poesia, inicia com o Romantismo de Crisálidas (1864) e
Falenas (1870), passando tardiamente pelo indianismo em Americanas (1875), e
o parnasianismo em Ocidentais (1880). Paralelamente, apareciam as coletâneas
de Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia-Noite (1873); os romances
Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia
(1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir
daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a
qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior
das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de língua
portuguesa.
Machado e Carolina, não tiveram filhos, dedicaram total atenção e carinho
para uma cadelinha tenerife chamada Graziela, que morreu em 1891; é famoso,
o episódio do dia que a cachorrinha Graziela desapareceu; o casal colocou o
Bairro do Catete em polvorosa, acabou aparecendo na Rua Bento Lisboa.
Machado de Assis sentiu tanto a morte da Graziela que mandou por em uma
moldura um cacho de seu pêlo, pendurando-o no quarto do casal. Mais tarde
conseguiram um substituto a altura de Graziela, um pincher preto, que ganhou
o nome de Zero.
Quando só ou acompanhado da esposa saía à noite, pelas ruas do Bairro do
Catete o escritor punha o diminuto cachorrinho Zero no bolso externo do
paletó. Andavam até, às casas das famílias amigas, onde se entretinham em
conversas e jogos de xadrez ou dama, ou ainda ouviam música, uma das grandes
paixões do poeta.
Machado de Assis foi sócio e bibliotecário do Clube Beethoven de Xadrez, no
Bairro do Catete; ainda que só os sócios soubessem o que ocorria entre as
paredes do seleto clube.
Por esta época acontece de Machado de Assis trair Carolina; tem um caso com
uma atriz canastrona de pés enormes de nome Inês Gomes era portuguesa e mais
velha do que Machado. O romance foi breve, mas o suficiente para manchar o
nome do escritor. O jornal de escândalos O Corsário, de Apulco de Castro,
trucidou moralmente o escritor.
Eles se mudam do Catete para a Rua Cosme Velho nº 18, em 1884, o que ajuda a
reaproximar Carolina de seu marido, visto que sua boníssima mulher ficou
abaladíssima com o insulto do marido. Essa mudança para o Cosme Velho
representa um passo decisivo no processo de aristocratização do escritor. A
vizinhança era formada por diplomatas, nobres, políticos, estrangeiros
ricos, com os quais Machado e Carolina logo se entrosaram.
Em 1889, foi promovido a diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em
que servia.
Desde que começou a melhorar de vida, Assis foi assolado pela idéia de ficar
louco e esse tema o atormentava de tal maneira, que ele o aborda em um de
seus melhores contos, "O Alienista", e coloca este assunto como um dos
motivos centrais de seu próximo romance, "Quincas Borba". A obra começou a
ser publicada em folhetim, em junho de 1886, mas só seria concluída em
setembro de 1891. O livro é impresso neste mesmo ano, chegando ao mercado no
início de 1892.
Sem participar diretamente da propaganda pela abolição, o que contrariava a
ética do funcionalismo público, que afinal era o seu ganha pão principal,
Machado contribuiu para o seu acontecimento mais do que muitos
propagandistas que assinavam artigos hipócritas ou gritavam pelas esquinas
do Rio de Janeiro.
Depois da Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, todas as questões
relativas aos escravos, suas matrículas, pecúlios, educação, guarda de
menores, etc... Passaram para a competência da sua secretaria. Como chefe de
seção da diretoria de Agricultura, ele fornecia informações e emitia
pareceres que pesavam diretamente nas decisões ministeriais. Machado saia
interpretando o regulamento das matrículas de escravos como se fosse uma
"operação padrão" de hoje em dia que alguns funcionários públicos fazem para
alcançar seus objetivos. Com isenção, porém se restringindo rigorosamente à
letra da lei. Dessa forma, quase sempre seus pareceres iam contra aos
interesses dos fazendeiros, que era a classe mais poderosa do Império,
favorecendo a liberdade de muitos escravos, antes da Lei Áurea de 13 de
Maio.
Artur Azevedo conta um episódio que presenciou onde mostra de maneira
exemplar a sua maneira de lidar com a coisa pública. Procurado por um
senhor, interessado em um processo dependente de seu parecer favorável,
Machado revela, sem firulas, mas com a mesma tranqüilidade de sempre, que o
seu ponto de vista era contrário ao das necessidades do ilustre
contribuinte. Na tentativa de modificar a opinião de Machado, o infeliz
começa a dar mil explicações, sem perceber que já estava sendo
inconveniente. Machado ouviu tudo com paciência. Terminado o discurso do
cidadão, levantou-se e amavelmente convidou o visitante a sentar em seu
lugar. Assim que o o tal senhor sentou, Assis falou com sarcasmo:
– O senhor diretor tenha a bondade de lavrar o parecer...
Ministério
da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, prédio onde Machado de Assis e
Buarque de Macedo trabalharam (mais tarde também Severino Vieira e Lauro
Muller), próximo a Praça XV, ocasionalmente o nome do ministério mudou,
assim como hoje ocorre na mudança de um mandato para outro conforme o gosto
político dos Presidentes da República.
Machado de Assis era a favor da abolição da
escravatura, ao seu modo, mas sabia que após esses acontecimento, seria
impossível a sustentação do sistema monárquico que ele apoiava. Logo veio a
República e Assis ficou cabreiro, mas não aconteceu nada de imediato, na
verdade ele até foi promovido mais uma vez. Mas depois se formou uma caça as
bruxas, surgiu um sem número de delações de conspiradores contra a
República, listas negras, perseguições de toda a sorte.
Um jornalista chamado Diocleciano Mártir chegou a incluir o nome de Machado
de Assis em uma dessas listas em seu jornal, a lista tinha em seu cabeçalho
o seguinte título: "maus patrícios e hipócritas monarquistas, pagos
fartamente pelos cofres da nação para dizerem mal de si próprios e cavarem a
ruína da Pátria". Lúcio de Mendonça, que era um republicano histórico e de
prestígio nos meios governamentais, saiu em defesa de Machado que apesar de
monarquista era seu amigo. Lúcio esculachou Diocleciano em público, não
poupando nem mesmo o fato dele ser deficiente físico e usar muletas.
Quando Prudente de Moraes se elegeu presidente, empossou como Ministro da
Indústria, Viação e Obras Públicas do governo Sebastião de Lacerda, que
levanta a bandeira da modernização do ministério, a fim de empreender maior
dinamismo à administração. Com isso no entanto, toma algumas medidas
desastradas para Machado. Assim, a 1º de janeiro de 1898, coloca Assis em
disponibilidade, com vencimentos integrais. Machado de Assis se queixa assim
para Artur Azevedo: "Fizeram-me um enterro de primeira classe".
Mas diante deste dissabor, ele não esmoreceu, e quem acabou ganhando foi a
literatura. Desde 1895, Machado vinha trabalhando em um novo romance,
difícil de escrever, mas com o tempo livre que tinha depois de seu súbito
afastamento do funcionalismo público, se dedicou com afinco à obra. e em
1899, H. Garnier lançava a primeira edição do Dom Casmurro, a obra mais
perturbadora até hoje escrita em língua portuguesa e que, no plano
universal, encerrava com chave de ouro o século por dos grandes romance.
Certa vez, Graça Aranha teria dito: "Como ele faz desejadas as mulheres".
Em 1896, Dona Carolina, dá os primeiros sinais de estar doente.
Logo nos primórdios da República brasileira, Medeiros e Albuquerque sugeriu
a criação de uma academia de letras, nos moldes da francesa. Lúcio de
Mendonça, então Secretário do Ministro da Justiça, gostou da idéia,
mobilizou escritores e concretizou a empreitada. Surgiu assim a Academia
Brasileira de Letras, em 1897.
Fundador da Cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras, ocupou por mais
de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de
Casa de Machado de Assis. Por iniciativa de José Veríssimo, a A.B.L. adotou
como lema um verso de Machado: "Esta é a glória que fica, eleva, honra e
consola".
Em 1899, Machado sai do estado de disponibilidade em que se encontrava no
serviço público, e volta, porém num cargo bem inferior, assume como
secretário do novo Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, O Sr.
Severino Vieira.
A tiragem de 2.000 exemplares, de Dom Casmurro, esgotou antes de chegar as
livrarias em janeiro de 1900. Foi necessário uma segunda edição no meio do
ano para satisfazer a demanda.
Em 1902, quando Lauro Muller assume o ministério, Machado reassume as
funções, como diretor-geral de contabilidade bem superior ao cargo em que
estava.
Por essa época, Sílvio Romero publica então o seu estudo "Machado de Assis",
mais uma vez, estupidamente tentando denegrir a obra do Mestre do Cosme
Velho. Foi intenso, os desdobramentos desta infâmia.
Em agosto de 1904, chegava nas livrarias um novo romance: Esaú e Jacó, sobre
a dúvida psicológica, a incapacidade de tomar uma decisão, que pode também
ser encarado como uma metáfora da transição do Império para o início da
República. Foi a obra de Machado que recebeu mais elogiadas pela crítica.
Dona Carolina piora sensivelmente. O casal viaja para Nova Friburgo tentando
repetir o que ocorreu com Machado, que havia se recuperado maravilhosamente
bem de suas doenças nesta cidade a alguns anos atrás. Foi inútil. Era câncer
no intestino. Carolina confidencia a uma amiga que gostaria de morrer depois
dele. Veja que a afinidade entre eles era tanta que Machado também esperava
a mesma coisa; Joaquim Nabuco relata o comentário dele:
"Eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque
não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela
deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho
nenhum".
Mas o destino tramou um desfecho diferente. No dia 20 de outubro de 1904
exatamente ao meio-dia, morre Dona Carolina com 69 anos de idade na casa do
Cosme Velho.
Machado manteve as coisas que lembravam sua amada no interior da casa como
ela havia deixado. Os talheres dela continuaram sendo colocados à mesa de
jantar, o seu travesseiro permaneceu na cama e a cesta de costura, com o
bordado interrompido, ficou no lugar em que ela deixou. Isso demonstra como
foi duro o golpe para aquele homem, de 65 anos.
Numa carta escrita a Joaquim Nabuco, Machado de Assis confessa, prevendo a
sua morte para breve: "Irei vê-la, ela me esperará".
Após a morte de sua amada esposa, ele continua trabalhando, tentando enganar
a tristeza que o domina.
Diz Artur Azevedo:
"Há quanto tempo o mestre, que dantes falava de tudo, e de tudo sorria, não
falava senão da morte, e não sorria mais"
Continuou cumprindo os seus deveres na repartição pública e mantém o mesmo
amor pela literatura.
Em 1906, são lançadas as Relíquias de casa velha, reunindo 15 trabalhos de
vários gêneros, inéditos e impressos, entre os quais algumas obras-primas,
como o soneto "A Carolina" e o conto "Pai contra mãe".
Em 1908, pouco antes da sua passagem, publica o Memorial de Aires.
Machado permaneceu lúcido e coerente até morrer. Momentos antes da sua
morte, perguntaram a ele se queria se confessar com um padre, o velho
respondeu: "Não quero, seria uma hipocrisia".
No dia 29 de setembro de 1908, às 3h 45 da madrugada, na casa do Cosme
Velho, morreu o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Imortal, na
academia e em sua vida e obra, para todos os séculos, Joaquim Maria Machado
de Assis.
Bibliografia:
· Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), como tradutor, sátira em
prosa.
· Desencantos (1861), comédia.
· O Protocolo e O Caminho da Porta (1863), teatro.
· Quase Ministro (sem data) comédia.
· Crisálidas (1864), poesia.
· Os Deuses de Casaca (1866), comédia.
· Falenas (1870) poesia, romantismo.
· Contos Fluminenses (1870).
· Ressurreição (1872), romance.
· Histórias da Meia-Noite (1873), contos.
· A Mão e a Luva (1874) romance.
· Americanas (1875), poesia, indianismo.
· Helena (1876), romance.
· Iaiá Garcia (1878), romance.
· Ocidentais (1880?)
· Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), romance.
· Tu, só tu, puro amor (1881), comédia.
· Papéis Avulsos (1882), contos.
· Histórias Sem Data (1884).
· O Alienista (?) conto.
· Quincas Borba (1891), romance.
· Várias Histórias (1896).
· Páginas recolhidas (1899), contos, ensaios, teatro.
· Dom Casmurro (1899), romance.
· Poesias Completas (1901).
· Esaú e Jacó (1904), romance.
· Relíquias da casa velha (1906), contos, crítica, teatro.
· Memorial de Aires (1908), romance.
Publicações Póstumas:
· Crítica (1910).
· Outras Relíquias (1932), contos, crítica, teatro.
· Correspondência (1932).
· Crítica Literária (1937).
· Páginas Escolhidas (1921).
· Casa Velha (1944).
De 1869 até a sua morte, todos os seus livros foram publicados pela Livraria
Garnier.
Em 1936, a casa W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, publicou as Obras
Completas de Machado de Assis, em 31 volumes.
A Editora Civilização Brasileira, com a organização de Raimundo Magalhães
Júnior publicou os seguintes volumes de Machado de Assis:
§ Contos e Crônicas (1958).
§ Contos Esparsos (1966).
§ Contos Esquecidos (1966).
§ Contos Recolhidos (1966).
§ Contos Avulsos (1966).
§ Contos Sem Data (1966).
§ Crônicas de Lélio (1966).
§ Diálogos e Reflexões de um Relojoeiro (1966).
Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação
e Cultura e liderada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras Sr.
Austregésilo de Athayde organizou e publicou, também pela Editora
Civilização Brasileira, as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em
15 volumes, reunindo contos, romances e poesias.
BIBLIOGRAFIA SOBRE A OBRA DE MACHADO DE ASSIS:
Em nome do apelo do nome. Duas interrogações sobre Machado de Assis.
Abel Barros Baptista - Litoral Edições, 1991 - Lisboa - Portugal.
Introdução a Machado de Assis.
Barreto Filho - Editora Agir, 1947 - Rio de Janeiro.
The Brazilian Othelo of Machado de Assis (A Study of Dom Casmurro).
Helen Caldwell - University of California Press, 1960 - Berkeley - Los
Angeles.
Retired Dreams: Dom Casmurro. Myth and Modernity.
Paul Dixon - Purdue University Press, 1989 - West Lafayette.
Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio.
Raymundo Faoro - Companhia Editora Nacional - 1976 - São Paulo.

Carolina Machado de Assis

Machado de Assis e dona Carolina

Funerais de Machado de Assis

Casa de Machado de Assis na Rua Cosme Velho, 18
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